Durante muito tempo, a cena após o parto foi quase sempre a mesma: o bebê nascia, era levado para pesar, medir, tomar vitamina K, receber colírio, entre outros cuidados iniciais. Enquanto isso, a mãe ficava na maca, à espera do momento em que poderia pegar seu filho no colo. Hoje, esse roteiro está mudando. Cada vez mais se fala em golden hour (ou “hora dourada”): o período logo após o nascimento em que o bebê fica em contato pele a pele, direto no colo da mãe, sem separações desnecessárias.
Para explicar melhor o que é a golden hour, por que ela é tão importante e o que as famílias podem fazer para garantí-la, convidamos a enfermeira obstetra Verônica Pires.
O que é a Golden Hour, na prática?
A golden hour é a primeira hora de vida do bebê em contato pele a pele com a mãe, de preferência sem interrupções. Ele deve ficar deitado sobre o tórax dela, coberto com um lençol ou manta, enquanto a equipe observa se está tudo bem com os dois.
“A golden hour é uma intervenção simples, mas com impacto enorme. Ela ajuda o bebê a se adaptar à vida aqui fora e ajuda a mãe a se recuperar melhor do parto e a iniciar a amamentação com mais tranquilidade”, explica Verônica.
A prática é recomendada por organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, que orientam o contato pele a pele imediato e o início da amamentação ainda na primeira hora de vida, sempre que mãe e bebê estiverem estáveis.
Benefícios da Golden Hour para o bebê
Para o recém-nascido, a primeira hora no colo da mãe é quase como um “aterrissar suave” depois da gestação.
“No pele a pele, o bebê estabiliza frequência cardíaca e respiratória, controla melhor a temperatura e o açúcar no sangue, e fica menos estressado. Ele se assusta menos com o ambiente novo e isso facilita muito o começo da amamentação”, explica Verônica.
Alguns benefícios da golden hour para o bebê:
- Ajuda a manter a temperatura corporal e evita episódios de hipotermia.
- Contribui para um padrão respiratório e cardíaco mais estável.
- Favorece a regulação da glicose nas primeiras horas de vida.
- Reduz choro, dor e estresse.
- Aumenta a chance de o bebê iniciar a amamentação ainda na sala de parto.
Outro ponto importante, segundo a especialista, é a colonização da microbiota. O bebê que fica pele a pele com a mãe tem mais contato com as bactérias dela, que são mais adequadas do que aquelas do ambiente hospitalar e fortalecem a imunidade da criança.
Benefícios da Golden Hour para a mãe
“Quando a mãe está com o bebê no colo, pele a pele, ela tende a relaxar. Vemos redução de estresse e ansiedade, melhora da pressão arterial, respiração mais tranquila. E essa proximidade ajuda a reduzir o sangramento pós-parto porque estimula a liberação de ocitocina”, explica Verônica.
A ocitocina, conhecida como o “hormônio do amor”, tem um papel central nesse momento:
- Ajuda o útero a contrair.
- Favorece a saída da placenta.
- Reduz o risco de hemorragia pós-parto.
- Fortalece a sensação de vínculo e bem-estar.
Alguns estudos também sugerem que o contato pele a pele pode ter efeito protetor em relação a sintomas de depressão pós-parto em algumas mulheres, além de diminuir a percepção de dor.
Amamentação na primeira hora: precisa acontecer?
Muita gente acredita que, se o bebê não sugar de forma “perfeita” na primeira hora, a golden hour foi “perdida”. Verônica faz um alerta importante:
“A golden hour não é uma corrida para fazer o bebê mamar. O foco principal é o contato pele a pele. Nem todo recém-nascido vai sugar nessa primeira hora, e isso não significa que algo esteja errado.”
Ela explica que o bebê nasce com uma reserva de energia que veio pela placenta e pelo cordão umbilical. Ou seja, ele não está “desesperadamente faminto” logo ao nascer, e isso dá tempo para que as coisas aconteçam com calma.
“Se o bebê começar a mostrar sinais de busca pelo peito, a equipe ajuda a posicionar e ajustar a pega. Se ele estiver mais quietinho, a gente respeita esse tempo e mantém o pele a pele. Mesmo sem sugar, esse contato já está ativando os hormônios da amamentação”, completa.
A recomendação é apoiar a mãe para que a amamentação se inicie o quanto antes, preferencialmente dentro da primeira hora, mas sem pressão e respeitando o ritmo do binômio mãe-bebê.
Dá para ter Golden Hour na cesárea?
Sim! Golden hour não é exclusividade de parto vaginal. Quando mãe e bebê estão estáveis, o contato pele a pele imediato também pode ser feito em cesarianas, com a equipe auxiliando na posição do recém-nascido e monitorando os dois com cuidado.
“A diferença está mais na logística. Na cesárea, a equipe precisa se organizar para colocar o bebê sobre o tórax da mãe, ajustando campo cirúrgico, monitorização, tudo isso. Mas é totalmente viável”, afirma Verônica.
E quando a Golden Hour não é possível?
Existem situações em que o bebê precisa de atendimento imediato ou de UTI neonatal. Nessas horas, a prioridade muda: primeiro, salvar e estabilizar o recém-nascido.
“Se o bebê precisa de ajuda para respirar, está em sofrimento ou precisa ir para a UTI, não vamos insistir na golden hour clássica. Nesses casos, nossa atenção se volta também para a mãe: explicar o que está acontecendo, garantir que ela se alimente, hidrate e descanse, e orientar a retirada de leite a cada três horas, para que o leite chegue ao bebê assim que possível”, conta Verônica.
Quando a condição clínica permite, o contato pele a pele pode (e deve) ser resgatado mais tarde, seja na UTI neonatal, seja no quarto. Mesmo fora da “primeira hora”, esse contato continua trazendo benefícios de vínculo, regulação emocional e apoio à amamentação.
Barreiras nos hospitais: por que ainda é difícil em alguns lugares?
Na teoria, a golden hour aparece em muitos protocolos. Na prática, ainda há grandes diferenças entre hospitais e equipes. Verônica comenta que em maternidades privadas de grande porte, a hora dourada já é mais comum.
“Em hospitais maiores, a equipe costuma ser mais treinada e a golden hour vira rotina. A vitamina K, por exemplo, muitas vezes é aplicada com o bebê no colo da mãe. A pesagem, o banho e outras coisas podem esperar”, explica.
Já em contextos menores ou com estruturas mais engessadas, ela percebe mais resistência:
“Em alguns casos, se não houver um plano de parto bem estruturado, a equipe tende a seguir o protocolo antigo, separando o bebê logo após o nascimento. Já precisei intervir de forma mais firme para que os direitos daquela mulher fossem respeitados.”
Por isso, ela reforça a importância de construir um plano de parto com antecedência, detalhando o desejo da família de ter contato pele a pele imediato, atraso de procedimentos não urgentes e apoio à amamentação na primeira hora.
Se você gostou de saber mais sobre a golden hour, o próximo passo é colocar tudo isso no papel. No artigo a seguir, mostramos como o plano de parto pode ajudar a garantir esse e outros direitos na maternidade.
Acesse e confira: Plano de parto: por que ele é importante?
Referências
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