A ideia de “menstruar grávida” aparece em relatos de amigas, em grupos de tentantes e até em histórias de mães que só descobriram a gestação meses depois. Mas, afinal, isso é mesmo possível?
Para esclarecer o tema, conversamos com a Ginecologista e Obstetra Dra. Yohanna Peixoto Vilela.
Ela explicou por que menstruação e gravidez não acontecem ao mesmo tempo, e o que pode estar por trás dos sangramentos que confundem tantas mulheres.
Menstruar grávida: por que isso não acontece?
Do ponto de vista fisiológico, não é possível estar grávida e menstruada ao mesmo tempo, pois a menstruação acontece apenas quando não há gestação.
“A menstruação é a descamação do endométrio quando não há fecundação. Quando essa gestação não acontece, o útero ‘renova’ essa camada e isso aparece como o sangramento menstrual”, explica a Dra. Yohanna.
Na gravidez, o mecanismo é o oposto:
- o óvulo é fecundado;
- o embrião se implanta no endométrio;
- o corpo aumenta a produção de estrogênio e progesterona para manter esse endométrio firme e espesso;
- essa camada passa a nutrir o embrião no comecinho da gestação.
“Quando a fecundação acontece, o endométrio vira uma ‘colcha quentinha’ que recebe e nutre o embrião. Ele não se desprende porque está sendo usado para alimentar essa gestação inicial”, compara a especialista.
Por que, então, tantas mulheres dizem que “menstruaram grávidas”?
A confusão acontece porque podem ocorrer outros tipos de sangramento nos primeiros meses de gravidez.
“O início da gestação pode trazer alguns sangramentos vaginais, como o de implantação do embrião (nidação), pequenos hematomas ou sangramentos do colo do útero, que fica mais sensível. Mas isso é completamente diferente da menstruação”, explica a Dra. Yohanna.
Entre as causas mais comuns de sangramento no comecinho da gestação estão:
- Sangramento de nidação (implantação) – quando o embrião “entra” no endométrio para se fixar;
- Pequenos hematomas no útero, que podem romper e sangrar;
- Sangramento do colo do útero, que fica mais vascularizado e sensível, especialmente após a relação sexual;
- Oscilações hormonais no começo da gestação, que podem deixar o endométrio menos estável e provocar pequenos sangramentos.
Menstruação e nidação: como diferenciar?
Menstruação e sangramento de nidação têm características diferentes, embora às vezes a diferença seja sutil. Para entender melhor, vale lembrar que nidação é o nome dado ao momento em que o embrião se fixa no endométrio, a camada interna do útero. Essa “entrada” do embrião no tecido pode provocar um pequeno sangramento, que muitas mulheres confundem com menstruação.
“A menstruação costuma durar de quatro a sete dias, com sangue vermelho no começo, em maior quantidade, e depois vai diminuindo até virar aquela ‘borra de café’ e terminar”, descreve a ginecologista.
Já o sangramento de nidação, em geral:
• é bem mais discreto;
• costuma aparecer como mancha em pequena quantidade;
• muitas vezes já surge como “borra de café”;
• dura um dia, no máximo dois;
• pode ou não vir acompanhado de um desconforto leve.
Claro que cada corpo é único, e nem todas as mulheres terão esse padrão exato. Mas, de forma geral, um fluxo mais intenso e duradouro se parece mais com a menstruação. Já manchinhas rápidas, em pouca quantidade e mais escurecidas, costumam se encaixar melhor no padrão de nidação ou de pequenos escapes.
Outros sangramentos no primeiro trimestre de gestação: o que pode ser e como lidar?
Além da nidação, existem outras causas de sangramento no início da gestação – algumas inofensivas, outras que exigem atenção.
“A causa que mais nos acende o sinal de alerta é o sangramento em maior quantidade, de sangue vermelho vivo, muitas vezes acompanhado de dor. O quadro pode estar associado a um abortamento. Nesse caso, é importante procurar atendimento médico rapidamente”, alerta a Dra. Yohanna.
Por outro lado, nem todo sangue é sinal de que algo está errado:
- Oscilações de estrogênio e progesterona podem provocar pequenos sangramentos, mesmo com a gestação evoluindo de forma normal;
- O colo do útero mais amolecido e vascularizado na gravidez pode sangrar após a relação sexual.
“Não é incomum que, durante a relação, o pênis encoste no colo do útero, que está mais sensível, e alguns vasinhos se rompam. Esse sangramento costuma ser pequeno, às vezes aparece só na hora e depois vira uma borra de café e para rapidamente”, explica.
Sangramentos pequenos, que param logo, especialmente em contexto de nidação ou após relação sexual, costumam ser menos preocupantes – mas sempre vale comunicar ao profissional que acompanha a gestação. O ideal é não se desesperar, mas também não ignorar: observe o padrão e discuta com a equipe de saúde.
“Como mulher e como mãe, eu sei que a gente cria a expectativa de uma gestação perfeita, e nem sempre vai ser assim. Ter um sangramento é algo que pode acontecer, e entender isso ajuda a não se desesperar”, conta a médica.
Ela lembra de um episódio pessoal no início da gestação:
“Eu também tive sangramento no começo da gravidez, provavelmente de nidação ou de um pequeno hematoma, e fiquei com muito medo, especialmente porque já tinha passado por uma perda antes. Meu marido me lembrou que aquilo podia acontecer e que não significava, necessariamente, algo ruim. Isso foi muito importante e me tranquilizou”, relata.
A mensagem que ela deixa para tentantes e gestantes é de informação e acolhimento:
“O primeiro passo para uma gestação mais tranquila é estudar muito sobre você e sobre o seu corpo. Entender a fisiologia, as mudanças e tudo o que pode acontecer ajuda a manter a calma diante das intercorrências e a saber como agir”, orienta.
Quer dar o próximo passo? Veja também nosso conteúdo sobre teste de gravidez e saiba quando fazer, como interpretar o resultado e quais cuidados ter antes de testar.









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